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Análise: Não fazemos bem, mas não deixaremos ninguém fazer melhor
IVIAGORA
O que seria do nosso país se não fossem os políticos cuidando de nós! Eles trabalham incansavelmente para criar projetos de lei, decretos, regras e inúmeras proibições em nome de uma sociedade “mais justa”. Agem como se o Estado fosse um pai ciumento, do tipo que não permite que ninguém cuide de seus filhos, afinal, é ele quem tem de suprir todas as suas necessidades.
Na realidade, o Estado age como aquele pai divorciado que só paga pensão quando a mãe ameaça coloca-lo na cadeia, que não sabe quase nada sobre a vida do filho e não se interessa em saber. Um pai que só aparece a cada 15 dias para levar a criança até a pracinha e, talvez, comprar um saquinho de pipoca murcha.
Ele aproveita qualquer sorrisinho do filho – ainda que forçado – para fazer selfies e postar no Instagram com legendas fofas. Depois, larga o menino com as outras crianças e passa o resto da tarde contando as curtidas e dando like nos comentários de quem caiu direitinho: “super pai!”, “ele é a sua cara!” E, se der sorte, ainda vai arrancar suspiros de alguma seguidora: “Ah, se todos os homens fossem iguais a você!”
Mais tarde é só entregar a criança de volta para a mãe e seguir com a vida, ignorando a existência daquele ser pelos próximos 14 dias. Esse pai só vai aparecer além dos dias em que é obrigado, caso o padrasto se atreva a querer comprar algo para o seu filho. O menino precisa de um remédio caro, cujo preço supera o valor da pensão (aquela que é paga aos trancos e barrancos) e o salário da mãe, mas que o padrasto se oferece para comprar.
O pai se ressente com aquela afronta e telefona para a ex-esposa, esbravejando do outro lado da linha: “Eu proíbo esse homem de dar qualquer coisa para o meu filho! Eu sou o pai, eu dou tudo o que ele precisa e isso não se discute!” Porém, ao desligar o telefone, não faz nada. Não compra, não manda o dinheiro e não deixa ninguém comprar. E se a mãe cobra, diz que está providenciando, que é preciso ter paciência e que tudo se resolverá no mês que vem, sem falta. E a pergunta é: quem, no fim das contas, está sendo prejudicado nessa guerrinha de ego?
Mas esse pai egocêntrico e temperamental também poderia ser uma mãe e chamar-se, por exemplo, Tabata Amaral. Aquela que tuíta: “Estou em Brasília e trabalhando pela retirada de pauta do projeto que prevê a compra de vacinas por empresas privadas. Em um país tão desigual, não tem sentido votarmos um projeto desse.” Realmente o “raio esquerdizador” pode fazer as pessoas mais inteligentes terem raciocínios sem o menor cabimento...
O conceito de justiça da deputada federal é o mesmo que dizer que todos nós seremos obrigados a utilizar apenas o SUS, proibindo que haja assistência médica privada. Ou o mesmo que baixar um decreto que nos obrigue a matricular nossos filhos em escolas públicas, acabando com o ensino particular. Afinal de contas, “em um país tão desigual, não é justo” que quem possa pagar tenha acesso a serviços melhores ou mais rápidos do que aqueles que o governo pode prover.
Ora, se há empresas dispostas a arcar com os custos da vacinação de seus funcionários, seria isso um problema? Se a iniciativa privada quer importar doses do exterior e bancar a aplicação em seus colaboradores, deveria ser proibida de fazê-lo? Em que isso prejudica o restante da população, sendo que não representam menos vacinas, mais sim, mais vacinas? Sob que ponto de vista isso é injusto?
Injusto é saber que, por conta do fechamento das atividades econômicas, a fome está em pleno crescimento, mas mesmo assim, trabalhar para atrasar o que pode fazer as coisas voltarem ao normal mais rapidamente. Injusto é saber que, pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população vive em insegurança alimentar – sem ter comida na mesa ou tendo menos que o necessário – e ainda querer que elas esperem a sua vez, porque não são prioridade na fila da vacinação.
Toda e qualquer atitude, seja pública ou privada, que possa acelerar o combate à pandemia e salvar vidas deveria ser apoiada e não proibida. Mas, de novo, o que seria do nós se não fossem os nossos políticos? Felizmente, a tentativa da parlamentar de nem sequer permitir a votação foi ignorada, assim como ela mesma ignora dados e fatos, quando prefere falar de “justiça social” diante de uma doença que não escolhe vítimas. Quem não faz e não deixa fazer não entendeu ainda para quem deveria trabalhar e a quem deveria servir.
Autora
Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.






