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16/05/2020 às 07h38

Para presidente da Mercedes-Benz, o Brasil perdeu credibilidade


iviagora - Valor Econômico

Faz algum tempo que Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz no Brasil e América Latina, aguarda o pagamento da Anvisa para uma empresa que produz um respirador de baixo custo, desenvolvido em conjunto com o Instituto Mauá de Tecnologia. Mas a burocracia não ajuda nem na mesma situação de solidariedade emergencial. “Como é difícil fazer negócios no Brasil. Quem consegue nesse ambiente burocrático? ”, Diz. Mas o pior, hoje, diz o executivo, é a falta de confiança do país desesperado pela ausência de coordenação para combater uma pandemia.

 

“Em poucos meses, o Brasil perdeu a credibilidade que havia sido conquistada como reformas trabalhistas e previdenciárias”, diz Schiemer. Para o executivo, a falta de ações coordenadas entre os governos federal, estaduais e municipais atrasa a recuperação econômica. “A confiança do consumidor só voltará a sofrer uma crise de saúde controlada”. O executivo lembra que na Alemanha, há brigas e opiniões diferentes em relação à pandemia. “Mas no fim são tomadas ações conjuntas e coordenadas”.

Já em fase de conclusão do gerenciamento do comando do maior produtor de caminhões e ônibus do país, Schiemer diz que não havia uma pandemia que seria, a essa altura, desfrutando de férias na Bahia, antes de executar nova função na Alemanha. Em fevereiro, a Mercedes anunciou o nome do alemão Karl Deppen para executar o comando de operação no Brasil.

Schiemer conhece bem o Brasil. Essa é sua terceira passagem pelo país. Trabalhou na área de vendas no fim dos anos 1990 e 2004. É presidente desde 2013 e habitua-se a permanecer à vontade para analisar uma situação do país em diferentes momentos, sem nunca esquecer as críticas a políticas macroeconômicas que consideram nocivas ao país e à produção industrial.

Assumiu, no entanto, mais moderado no início do governo de Jair Bolsonaro e mostrou-se satisfeito com as estimativas de reformas no país. No entanto, em uma conversa por videoconferência, com um grupo de jornalistas, Schiemer voltou ao velho estilo e fez críticas duras a um tipo de crise que foi conduzida em um país.

“É uma tristeza ou o que estamos vendo”. Para ele, como brigas políticas vão retardar soluções. “Os políticos estão focados em 2022”, destacado, em referência ao ano eleitoral. Schiemer criticou, ainda, uma constante troca de ministérios no momento “guerra” e disse que “não tem um funcionário público público que reajuste enquanto o pagador de impostos está morrendo”. Para ele, “medidas populistas, aprovadas de forma irresponsável, deixando uma herança diabólica”.

Ele também apontou para alta do dólar, que pressionou e elevou a empresa a reajustar os preços mesmo com vendas em baixas, como problema que “não tem explicação técnica”, já que a inflação está sob controle. Trata-se, disse, de mais uma consequência das “brigas políticas”.

Uma fábrica de caminhões e ônibus da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo (SP), retomou a produção na segunda-feira, com metade dos operadores. Os demais estão com os contratos suspensos, sem sistema de “dispensa”. A empresa concedeu estabilidade no emprego até o fim do ano. Mas Schiemer já prevê que essa situação possa ser “sustentável”.

O mercado de caminhões não está totalmente parado. Schiemer indica o agronegócio e os setores de celulose, produtos químicos e alimentos e bebidas como atividades com demanda. Mesmo assim, as vendas totais em abril registraram retração de 56% em relação ao planejado pela indústria. “Há algumas entregas do varejo movimentadas ou mercado para baixo”.

Já o mercado de ônibus sofre impacto maior, com redução de viagens rodoviárias e demanda por transporte público. As vendas no mês passado caíram 83% em relação aos volumes planejados no início do ano.

A Mercedes planeja concluir o plano de investimentos de R $ 2,4 bilhões para o período entre 2018 e 2022. Uma empresa seleciona, porém, congelar novas programações para a América Latina. O importante agora, diz Schiemer, é cuidar da capital do giro.

A empresa integra um grupo de montadoras, liderado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que solicita ao governo a possibilidade de usar créditos tributários ou garantia para obter pagamentos bancários.

Mas, enquanto Schiemer e pacientes da covid-19 aguardam ou avaliam a Anvisa para produção de respiradores ativados pelo Instituto Mauá, um Mercedes tem ajudado a respirar danificados. “Olhamos onde podemos ajudar”, diz.