Após Lula proibir bets, brasileiros compram mais arroz, óleo e café, diz Abras


Os brasileiros passaram a comprar mais arroz, óleo, macarrão e café nas semanas seguintes à proibição das bets pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) nesta terça-feira (27) aponta crescimento do consumo de alimentos essenciais em todas as regiões analisadas do país.

Entre os dias 5 e 11 de outubro, o varejo alimentar brasileiro registrou alta de 6,5% em relação ao mesmo período de 2025. Na semana seguinte, de 12 a 18 de outubro, o avanço foi de 6,3%. Os resultados foram divulgados pela entidade durante a feira Supervendas, realizada em Aracaju, Sergipe.

Segundo a Abras, o crescimento ocorreu principalmente entre os produtos básicos da alimentação das famílias. A entidade relaciona o movimento à medida provisória assinada por Lula em 25 de setembro, que proibiu as apostas esportivas e os jogos de cassino online no Brasil.

A avaliação do setor supermercadista é que parte dos recursos anteriormente destinados às plataformas de apostas passou a ficar disponível para outras despesas domésticas, especialmente a compra de alimentos.

Consumo cresce até 10,6% em algumas regiões

O levantamento mostra que o aumento das compras não ficou restrito a uma determinada região. Na semana de 5 a 11 de outubro, o Sul apresentou crescimento de 10,6%, mesmo percentual registrado no conjunto formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro.

O Nordeste teve avanço de 6,5%, enquanto o interior paulista registrou 5,6%. Na Grande Rio de Janeiro, a alta foi de 4%. O Centro-Oeste cresceu 3,6%, e a Grande São Paulo, 1,2%.

Na semana seguinte, entre 12 e 18 de outubro, o Sul voltou a liderar, com aumento de 9%. Minas Gerais, Espírito Santo e interior fluminense registraram 7,1%, seguidos pela Grande Rio, com 6%.

O interior de São Paulo avançou 5,6%, e a Grande São Paulo chegou a 5,5%. Nordeste e Centro-Oeste apresentaram crescimento de 4,5% e 3,5%, respectivamente.

Os percentuais representam comparações com as mesmas semanas do ano anterior, e não com o período imediatamente anterior à proibição das apostas.

Fim das bets coincide com queda nas transações pelo Pix

A Abras também associa o crescimento das compras à redução das movimentações realizadas pelo Pix depois da proibição das apostas.

Dados do Banco Central mostram que o número de transações pelo sistema caiu 10% nos três dias seguintes à publicação da medida provisória. Entre 26 e 28 de setembro, foram registradas 608,6 milhões de operações, abaixo da média dos mesmos dias das quatro semanas anteriores.

O recuo foi de 11% no sábado, 12% no domingo e 7,4% na segunda-feira. A entidade supermercadista afirma que a redução posteriormente se estabilizou em aproximadamente 7%.

Para o presidente da Abras, João Galassi, o comportamento das transações financeiras coincide com o aumento das compras de alimentos. O dirigente afirmou, durante a Supervendas, que a expansão foi identificada em diferentes formatos de comércio, incluindo supermercados, atacarejos e lojas de vizinhança.

A relação direta entre os dois movimentos, entretanto, ainda não está demonstrada. O Banco Central não atribuiu a redução das transações exclusivamente ao fim das bets, e a divulgação da Abras não apresenta percentuais individuais de crescimento para arroz, óleo, macarrão e café.

O consumo de alimentos já apresentava resultados positivos antes da medida. Em agosto, por exemplo, o indicador mensal da própria Abras havia registrado crescimento real de 2,69% em relação ao mesmo mês de 2025.

A Medida Provisória 1.394/2026, assinada por Lula em 25 de setembro, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional.

A proibição abrange as apostas esportivas e os jogos online, incluindo plataformas sediadas no exterior que atendam usuários brasileiros. Outras modalidades lotéricas legalmente autorizadas, como a Mega-Sena, não foram atingidas.

Desde a publicação da MP, as empresas ficaram impedidas de receber novos depósitos. Os sites e aplicativos deveriam deixar de operar a partir de 6 de outubro, enquanto os saldos remanescentes dos apostadores deveriam ser devolvidos conforme o calendário estabelecido pelo governo.

A iniciativa faz parte de um conjunto de medidas adotadas pelo governo Lula para enfrentar o endividamento das famílias e reduzir os problemas sociais e de saúde associados à dependência de apostas.

Como a Revista Fórum já mostrou, Lula vinha defendendo publicamente o encerramento das bets e criticando a retirada de recursos do orçamento das famílias brasileiras pelas plataformas.

A medida provisória continua em vigor, mas ainda depende de aprovação do Congresso Nacional para se transformar definitivamente em lei. Segundo o sistema oficial de tramitação, o texto aguardava a instalação da comissão mista nesta quarta-feira (28).

Os resultados apresentados pela Abras são os primeiros indicadores setoriais divulgados após a retirada das plataformas autorizadas do mercado. Embora ainda não permitam calcular quanto da alta do consumo decorre diretamente da proibição, os números apontam crescimento das compras de alimentos justamente nas semanas posteriores à mudança.

Credito Revista Fórum